Tralhas
de um quarto bagunçado...
Eu
já quis ir até o horizonte pra tocar o céu,
Mas
criança não sabia que esse era o seu nome.
Pra
mim, era “aquele lugar”, depois daquela arvore lá longe;
Depois
daquele morro... Lá sim eu poderia tocar as nuvens,
Tocar
o céu com as mãos.
Eu
já desejei voar, quando não entendia que só os pássaros podiam.
Já
desejei me misturar com o ar.
Eu
já quis sair andando, sempre pra frente, e chegar de novo em casa pelo outro
lado. O mundo era redondo mesmo, minha irmã que disse.
Sempre
quis passar embaixo do arco íris. Minha mãe dizia que se eu passasse viraria
homem. Mas e daí? Sempre quis ser moleque mesmo.
Em
cima de uma árvore, eu fui princesa, alguma coisa que podia voar e campeã, sim,
um galho tinha virado uma prancha de surf, ou um skate, não lembro... Só sei que
lá de cima eu sorri.
Era
tudo tão simples.
A
grama alta que me cobria, virava túnel, floresta, cama.
Eu
era cantora, atriz, atleta, e escorregava em qualquer lugar que deslizasse.
Eu
rezava com a minha mãe, ia na catequese com meus irmãos, fugia de casa pra
brincar, cantava “Mãezinha do Céu”...
Um
pé de jabuticaba foi meu abrigo por muito tempo, tinha até um balanço lá, que
eu mesma fiz.
Uma
lágrima ou duas sempre me trazia o que eu queria.
Ai
eu cresci e descobri que se eu chegasse lá do outro lado do morro eu não
encontraria o céu, só o veria bem lá longe...
E
fui descobrindo aos poucos que a vida de criança é bem mais interessante que a
de adolescente, jovem, e tenho certeza que a vida de adulto é bem mais chata...
As
lágrimas já não atendem meus desejos e se eu subir numa árvore, só vou lembrar
dos sorrisos que já sorri.
Algumas
coisas mudaram bruscamente. É estranho! Assustador!
Mas
eu ainda quero alcançar o arco íris e passar por baixo. E sair de um lado e
voltar pelo outro um tempão depois.
Mas
não é tão simples mais. E as dores que eu sinto, são bem piores que aquelas que
sentia quando caia de bicicleta, pisava em espinhos, ralava os joelhos, batia a
canela que vivia roxa... E assim eu descobri que dores físicas não chegam nem perto
das emocionais. E isso não existia no meu mundo!
Meus
amigos imaginários não me magoavam, nem iam pra longe. Eles sempre estiveram comigo
e acabei de descobrir que fui eu que os abandonei junto com os brinquedos e o cavalo
de cabo de vassoura.
Eu
cresci. Mas eu criança ainda vive em mim, com todas as recordações e sonhos. E na
nostalgia meus olhos brilham de saudade de ser feliz!
Juliana.